Minha primeira frustração profissional aconteceu quando eu tinha 6 anos.

Eu fui convidado a fazer um comercial para uma loja de departamentos na minha região, lá no sul de Santa Catarina.

Me lembro muito bem da sensação que tive.

Acho que era uma mistura de felicidade com soberba, seja lá o que isso signifique para uma criança de 6 anos.

Talvez fosse o cachê de R$20 que me permitiria comprar muitas figurinhas ou kinder ovos. 

Minha família estava super orgulhosa.

Era um comercial de Natal.

Na propaganda eu era um dos netos de uma família gigante e feliz que trocava presentes depois da Ceia.

A propaganda teria 15 segundos e eu apareceria comendo panetone.

Eu nunca havia comido panetone.

Nem sabia o que era.

Mas assim que peguei o primeiro pedaço ficou claro que eu não gostaria.

Que criança gosta de passas e ameixa seca, aliás?

Até hoje eu não gosto de panetone.

Só esses de chocolate que inventaram mais recentemente. 

Imagina um panetone de kinder ovo?

Foi um esforço descomunal gravar 30 vezes a mesma cena, tentando desviar as mordidas das passas e ameixas secas que apareciam no caminho da minha boca.

Ninguém sabia da dificuldade que eu estava tendo.

Minha mãe talvez.

Mas eu segui perseverante.

Nem sempre na vida é tudo do jeito que a gente quer, meu pai me ensinou desde cedo.

Comer panetone era o preço que eu precisava pagar para aparecer em um comercial de TV, ficar “famoso” na escola (seja lá o que isso signifique para uma criança de 6 anos) e ganhar R$20 em um cheque cruzado, em 1994.

Não parecia tão caro até.

E lá fui eu, desviando das ameixas e engolindo uma ou outra passas que acabava passando.

Me perguntei se uva passas se chamava passas por isso inclusive.

Talvez, né?

Depois de algumas horas de gravação e várias tomadas, minha missão havia sido cumprida.

Recebi o cheque em mãos e entreguei à minha mãe.

“Vamos abrir uma poupança para você com esse cheque, Rodrigo”.

Fiquei triste pelas figurinhas e kinder ovos que eu não poderia comprar, mas minha mãe parecia ter razão.

Eu já era gente grande. Comia panetone, tinha recebido um cachê em cheque e apareceria na TV.

Definitivamente uma conta no banco era o que eu precisava com 6 anos.

Semanas se passaram e a propaganda não foi ao ar.

A cada dia eu ficava mais ansioso.

“Mãe, alguma novidade sobre a propaganda”?

“Não, meu filho, ainda é Setembro, eles devem lançar mais perto do Natal”.

“Entendi. Vou resolver outras coisas então. Depositar meu cheque talvez.”

O tempo passou e o tão esperado dia chegou.

Estávamos ansiosos para ver a propaganda de 15s.

O primeiro segundo passou e o segundo também.

5 segundos e nada.

10 segundos.

15!

A propaganda acabou.

“Cadê a minha parte, mãe?”

“Pois é, meu filho, talvez eles tenham precisado cortar muitas coisas.”

“Mas todo mundo apareceu, menos eu.”

“Bem, pelo menos você aparece na foto final com toda a família junto”.

(Eram mais de 30 pessoas na foto, impossível me reconhecer nas TVs da época).

Minha primeira frustração profissional acabava de ser decretada.

Aos 6 anos de idade.

Eu tinha dado o meu melhor. Superei um obstáculo gigantesco para comer o panetone.

E ninguém tinha valorizado.

Ou melhor, tinha o valor de R$20.

Provavelmente pouco para quem me pagou.

Mas muito para mim.

Meu álbum de figurinhas do próximo ano estaria garantido afinal.

Resultado do meu suor e das minhas superações.

Moral da história: Só você sabe as dificuldades que precisa superar para realizar determinadas tarefas. O que para os outros parece simples, para você pode não ser. Mas o valor de uma superação é apenas seu. Se você precisou sair da sua zona de conforto e superou um obstáculo, comemore. Toda história tem um lado bom. Concentre-se nele.

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