Pouco antes de graduar em Engenharia, eu precisei lutar contra tudo e contra todos para homenagear uma Professora de Física Quântica na cerimônia de formatura.

Eu era membro da comissão. E quando propus a ideia, a galera foi à loucura.

“Como assim homenagear a Maria Loca?

Shame on us! Mas sim, esse era o apelido dela entre nós, jovens estudantes de Engenharia, soltos na Ilha da Magia, com nossos ipod shuffle nos ouvidos, barba por fazer, sandálias havaianas e certeza de um futuro brilhante pela frente.

Seríamos ENGENHEIROS, afinal.

Grandes coisas, minha mãe dizia.

Mas havia dois motivos para não homengear a Professora:

  1. Outros Professores pareciam muito mais “merecedores”, segundo o nosso míope julgamento desprovido de critérios.
  2. Boa parte da turma (e também da comissão) tinha repetido a cadeira dela uma, duas ou até três vezes.

Talvez por ter passado (ainda que no limite) eu tenha realmente sido um tanto ousado frente aos meus colegas. Mas éramos a comissão e eles concordaram em levar a ideia à turma.

O resultado não foi nada do que já não esperávamos.

Uma chuva de nãos!

Segundo alguns colegas, eu estaria tão loco quanto a Maria.

Loucuras a parte ou não, uma coisa era certa: eu não estava disposto a ceder!

E a razão era simples:

“A Professora Maria Luiza despertou em mim um interesse pela Física Quântica que eu jamais pensei que fosse possível.”

Duas histórias dela me são inesquecíveis. E nesse artigo eu compartilho elas com você.

Vamos começar?

Tire os sapatos, pegue um café e sinta-se à vontade. Aqui a casa é sua.

Teletransporte existe

Era uma aula normal em uma daquelas salas velhas do bloco da Física ou da Matemática se eu não me engano.

Enquanto falava sobre buracos negros, gato de Schrödinger, espaço-tempo, aceleradores de partículas e o cosmos, em um nível de complexidade que eu já tinha desistido de entender nos 10 primeiros minutos, uma voz no fundo da sala interrompeu a Professora e me despertou.

 – Então está dizendo que o teletransporte existe, fessora?

A pergunta vinha do Panda, um dos únicos alunos com uma capacidade invejável de acompanhar o raciocínio da Professora.

 Eu, na minha vã ignorância, pensei:

 – Car****, Panda, viajou geral agora. Dá onde tu tirou isso?

E a fessora

– Sim. O teletransporte existe!

Eu saí daquela aula completamente alucinado. A partir daquele dia eu passei a ler tudo sobre multidimensões, espaço-tempo, matéria, quarks, fermions e bosons. Relatividade e viagem no tempo.

E quanto mais eu estudo, mais eu percebo que preciso estudar. Já assistiu Dark? É brilhante!

O respeito à Ciência

A segunda vez foi ainda mais forte.

Não acredita?

Então escuta essa.

Era mais uma aula qualquer dessas em algum bloco que não o CT. Aulas fora do CT sempre eram menos valorizadas. Parte da nossa juvenil soberba talvez.

Após perder o controle perante a nossa indiferença com a matéria (ou indisciplina com a disciplina), a Professora Maria Luiza Sartorelli fez meu coração parar.

Ela nos deu um sermão sobre RESPEITO que até hoje ecoa em meus pensamentos.

Com um olhar triste, quase indiferente, se não fosse pelo importante teor do assunto, ela se referiu à diferença de respeito que recebia no Brasil e na Alemanha, onde tinha obtido seu PhD.

Na terra da cerveja, ela tinha o selo do Instituto Max Planck nos documentos. Era respeitada onde fosse. Tinha prioridade em algumas situações. Chegou a ter seu nome falado pelos alto-falantes de um aeroporto, onde foi agradecida pelos seus esforços em pesquisa científica.

Já no país do futebol, ela era só uma Professora. Às vezes, fessora. Outras, piores, apenas ssora. Algumas pessoas chegavam a perguntar se, além de Professora, ela trabalhava.

Como se ser Professor não fosse um trabalho.

Cerveja 7. Futebol 1.

Sem lágrimas nos olhos, mas com o coração em pedaços, evidente pelas mãos trêmulas e a respiração ofegante, a Professora Maria Luiza Sartorelli calou uma turma de jovens etudantes de Engenharia, soltos na Ilha da Magia, ipod, barba, havaianas e NENHUMA certeza de qualquer futuro pela frente.

Naquele dia eu aprendi:

“O respeito à Engenharia começa com o respeito à Ciência.”

Via de regra, privilegiamos os Professores que nos ensinam a parte mais prática da coisa. Resistência dos Materiais, Mecânica dos Fluidos, Transferência de Calor e Processamento Mecânico parecem muito mais interessantes.

Somos atraídos e traídos por uma ótica injusta de pensar que são essas disciplinas que nos darão a base para exercer a Engenharia de fato.

Mal sabemos que sem Ciência não há Engenharia que se sustente.

No dia 21 de Setembro de 2012, data da minha formatura, tive o privilégio de entregar a placa de Professor homenageado à Professora Maria Luiza Sartorelli.

Pela sua dedicação à pesquisa científica e por despertar em nós a paixão por uma disciplina tão complexa, mas tão importante para qualquer Engenheiro.

Porque se depender de mim, o respeito que a Ciência tem na Alemanha, é o respeito que a Ciência terá no Brasil.

Alemanha 7. Brasil 7.

O futebol é outro quando acompanhado de cerveja afinal.

2 comentários em “O respeito à Engenharia começa com o respeito à Ciência

  1. Obrigada pelo texto Rodrigo. Como alguém que faz o caminho inverso, migrando da ciência para engenharia, também observo esta soberba por parte destes últimos, sem entender de fato a importância das bases científicas que dão origem a engenharia, que muito se beneficiaria de aplicar o método científico em seu dia-a-dia . Fico muito feliz em ver este reconhecimento por parte de um engenheiro, só confirma o quanto você merece tudo que conquistou e vem conquistando.

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  2. Excelente!!! Não podemos deixar de valorizar a engenharia e as disciplinas que nos deram base para entender outras disciplinas mais práticas e aplicáveis.

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