Existe uma banalização completamente infundada e impensada a respeito de estagiários que me incomoda há muito tempo. Desde muito antes de eu me tornar um. Sabe aquela coisa enraizada na gente de que estagiário serve para tirar xerox, levar uns papeis de um lugar pra outro ou preencher planilhas que ninguém vai ler? Pois é.

Isso só acontece porque continuamos com um pensamento antigo a respeito dos estagiários. Pior de tudo é quem teve más experiências como estagiário e as perpetua com os seus.

Eu sempre pensei completamente diferente. E resolvi abordar o assunto neste artigo. Portanto, pode tirar os sapatos e ficar a vontade que, como já sabe, aqui a casa é sua.

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Minha relação com o estágio começou cedo. Meu pai era o tipo de cara que não podia ver eu e meu irmão de férias da escola. Ele até deixava passar as férias de verão quando éramos muito novos (ainda antes dos 10), porque íamos para a praia e ele meio que esquecia da gente. Valeu, pai!

Sorte ou azar fica a seu critério, mas aquelas férias do mês de Julho inteiro “sem nada para fazer” eram um prato cheio para ele nos arrumar uma atividade ou um estágio. Sempre tinha um estoque para contar na farmácia, uns pedidos para conferir ou umas voltas de banco para fazer (antes de 2000 era muito comum irmos ao banco pagar contas, iGen’Z).

Era tudo muito legal enquanto todos os seus amigos estavam jogando bola ou tomando banho de piscina no clube.

Um pouco mais tarde, nem as férias de verão eram relevadas. Com 12 para 13 anos de idade, me lembro de submeter pedidos de patente para o INPI e revisar bulas de remédios em dossiês submetidos à ANVISA em pleno Janeiro. Pensa só?!

Não tenho do que reclamar no entanto.

Quando cheguei à graduação, provavelmente não por acaso, escolhi fazer Engenharia de Materiais, o único curso da UFSC que oferecia os períodos em quadrimestres e a partir do 5º período oscilava uma fase de estágio integral com uma fase acadêmica.

Isso fazia com que você saísse da graduação com 2 anos de experiência de trabalho. (Falo no passado porque ao que fiquei sabendo, a ementa mudou para períodos semestrais e isso me deixou bastante decepcionado, mas isso é assunto para um outro papo).

Férias? 3 a 4 semanas entre o Natal e a metade de Janeiro.

Confesso que no início era bastante irritante estar em uma sala de aula, em pleno verão de Floripa, em Janeiro ou Fevereiro, bem antes do Carnaval.

Mas se você parar para pensar, é assim na vida profissional. Na minha opinião não faz sentido ter 3 ou 4 meses de férias durante a faculdade sendo que o mercado de trabalho, perante a lei, tolera apenas um.

Para tornar curta uma longa história, o resultado da minha graduação em Engenharia foram 5 estágios em 5 empresas diferentes, sendo o último deles na empresa que trabalho até hoje.

Trabalhei em empresa familiar, em multinacionais brasileiras e estrangeiras. No Brasil e fora dele. Posso dizer que vi de tudo, não apenas através das minhas experiências mas também pelo que acontecia com os outros estagiários ao meu redor. Vi e ouvi centenas de relatos de experiências de estágio. Das mais deprimentes ou deploráveis às mais excitantes.

Particularmente tive muita sorte por sempre ter tido líderes que souberam me desafiar. Eu não me lembro de ter me sentido subvalorizado nos meus estágios. Sem falsa modéstia, pois sei até onde íam os meus méritos, mas não posso deixar de reconhecer os valores dos meus orientadores.

Desde o primeiro estágio eu sempre fui tratado como empregado e não como estagiário.

E isso fazia toda a diferença! Eu nunca me esqueço da primeira bronca que levei de uma chefe por ter deixado a sala por arrumar para não perder meu ônibus no final do dia. No dia seguinte ela chegou mais cedo, me chamou no seu escritório e me deu um sermão inesquecível.

E com razão! Ela não tinha nada a ver com o horário do meu ônibus. Admito que fiquei chateado, mas alguma coisa naquele esporro me dava sinais de que ela me tratava igual aos demais. (se ela ler esse texto, provavelmente nem vai lembrar e muito menos entender o quão bem ela fez).

Fiz estágio de virar a noite na empresa para acompanhar algum teste ou alguma fabricação especial. Visitei fornecedores e clientes. Sempre tive projetos específicos, com métrica e KPI. Era sensacional quando a empresa NÃO tinha um tratamento específico para estagiário e você gozava dos mesmos direitos e deveres de qualquer funcionário. Plano de saúde, vale alimentação ou vale transporte. Bônus!

Essas coisas que fazem você se sentir parte da empresa.

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Em um deles, na França, fiquei os 6 meses de estágio dedicados exclusivamente a um projeto. À época, duas máquinas de oxicorte vinham apresentando queda de rendimento e a empresa decidiu dedicar um estudante do quinto ano de Engenharia exclusivamente a recuperar a eficiência das máquinas. Eu estava no quarto ano da Engenharia no Brasil, mas tive a oportunidade de cursar o quinto ano de Engenharia na França. A sorte ou o azar ficam a seu critério novamente, mas durante aqueles seis meses eu era o nome daquelas duas máquinas na empresa! Ninguém mexia nelas sem falar comigo.

Consegue imaginar o sentimento de importância que eu tinha?

Agora se ponha no lugar da empresa. Eles podem ter um aluno prestes a se formar, cheio de vontade de trabalhar pelo custo de 10 a 20% do valor de um recém formado, com um pedaço de papel chamado diploma à frente.

Consegue entender?

Portanto, concluo com o comentário que deixei no post do @Diego Cidade e que inspirou este artigo:

O estagiário é uma mão-de-obra barata para a eficiência que pode desempenhar. Todo estag é um high potential. Basta saber desafiá-lo para obter uma eficácia difícil de alcançar com empregados consolidados.

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