O desenvolvimento de qualquer segmento da indústria depende diretamente, em maior ou menor grau, do desenvolvimento educacional correlato. As Universidades têm, por definição, o propósito de fornecer tal valor através de pesquisa e desenvolvimento (P&D). A indústria demanda, a universidade oferece. Simples né? Como qualquer lei de oferta e demanda por aí. Mas não é assim que tem funcionado.

Existe um descompasso na resposta da academia à necessidade da indústria. Em uma situação comum, quando a oferta não supre em volume a demanda, aumenta-se a oferta até que se neutralize a demanda. Mas neste caso, o problema é agravado não por uma questão de volume apenas. Apesar da evolução da mecânica quântica de Planck a Einstein, ainda não quantificamos sabedoria e conhecimento científico em partículas elementares. Além disso, tecnologias de ponta e a descoberta de medicamentos que combatam doenças de rara cura não se desenvolvem da noite para o dia.

O descompasso está, portanto, na velocidade de resposta e na falta de planejamento. Uma indústria enxuta e acelerada como a que temos atualmente precisa ser respaldada por Universidades que desenvolvam suas pesquisas (no sentido literal da expressão) na mesma velocidade.

Urgente > Importante

No Brasil, temos ainda outro agravante: a dificuldade em separar o urgente do importante. Em períodos de crise, por exemplo, o urgente inevitavelmente supera o importante. Os primeiros departamentos a serem sacrificados na indústria são os de P&D. Importantes, não necessariamente urgentes.

Projetos de P&D são por natureza de longo prazo e demandam planejamento. E a urgência com que a indústria solicita respostas dificulta tal prática. O fato de nascerem sem planejamento faz com que não tenham um escopo bem definido, com objetivos e milestones claros. A acuracidade da estimativa de retorno então, muitas vezes abstrata, é utopia. Um mamão com açúcar para o corte de custos.

Modelos de Referência

Em países desenvolvidos, isso funciona diferente. Pode-se dizer que existe certa resistência ao início de projetos de P&D, justamente porque eles planejam de fato. Confirmam a necessidade da demanda. Definem o escopo, objetivos e metas. Estimam o retorno, com cenários otimistas, pessimistas e realistas. Asseguram a viabilidade desde o início. Tratam a ciência com razão. A resistência do início é justificada na frente. Eles sabem que o corte inesperado de recursos para esse tipo de projeto é fatal. Interromper uma pesquisa de 10 anos no sexto ou sétimo ano pode ser muito mais prejudicial do que benéfico, e essa conta é feita no início, muitas vezes paga upfront. Na hipótese de necessitar decidir por continuar ou não, os dados são claros e o consenso é unânime. É importante, não urgente.

Em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, detentores das maiores Universidades públicas e privadas do mundo e de uma indústria que, não por acaso, acompanha tamanho sucesso, as empresas estão por trás dos principais desenvolvimentos acadêmicos. A partir das suas demandas, identificam as Universidades com potencial de supri-las e trabalham fidedignamente em conjunto. As empresas se utilizam dos recursos físicos e mentes pensantes, bens do Estado, como ferramentas para atender suas necessidades. Pagam em dinheiro e cobram em ciência. O tempo é importante também, claro. Mas a aproximação de indústria e universidade resulta em ganhos que vão além da ciência em si. Eles caminham juntos e na mesma velocidade, com práticas semelhantes, que satisfazem a ambos. As coisas fluem. A pesquisa é de fato desenvolvida.

E a solução não está somente em depender de financiamento privado. A Alemanha é um bom exemplo. Apesar de financiada pelo Estado, a academia não sofre intervenções radicais no seu orçamento quando a conta aperta. A cultura perpetuada por Wilhelm von Humboldt, pai do sistema educacional alemão que influenciou outros diversos ao redor do mundo, determina que o professor universitário deve, além de lecionar, conduzir pesquisa científica e desenvolvimento de ponta para atender a indústria. E essa filosofia é mantida no DNA do povo alemão. Todos sabem da importância e mantêm a prática. A chanceler alemã Angela Merkel, proveniente da DDR (Deutsche Demokratische Republik) oriental e PhD em físico-química, é uma das responsáveis por manter essa reputação. Ela diz:

“I came from basic research myself and have always said, you can’t predict things there — you just have to leave space.”

A raiz científica do país ajuda, é claro. Mas o trato com a ciência é superior ao orçamento destinado à educação científica apenas. Importante, não urgente.

E por que no Brasil a gente não reproduz esses modelos?

No Brasil o modelo anglo-americano encontra dificuldade na velocidade de resposta descompassada já mencionada e também na nebulosidade da prática de financiamentos privados em iniciativas públicas, principalmente no atual momento. Além disso, desconhecemos os mecanismos de fazer isso de forma isenta de riscos legais e justa no senso comum. Acredito que aqui reside um ponto em que podemos melhorar. E já estamos fazendo algo. Conheço de perto o movimento que acontece nesse sentido. E isso tá partindo das empresas, a partir de políticas criadas pelo Estado, para incentivar a indústria a investir em P&D. Tudo bem que não precisaria ser lei, mas isso é outra questão.

Não temos uma Angela Merkel disponível por aqui, mas o modelo alemão pode servir como base para apontar soluções. Para isso, as Universidades precisariam melhorar sua oferta a ponto de se tornarem de fato atrativas à indústria. O fato é que as principais Universidades do país ainda desconhecem as necessidades do mercado e pouco têm feito para alterar este panorama. Não acompanham a velocidade da indústria e estão muito longe de fazê-lo. Ao invés de aproximarem-se, entender o “cliente”, se adaptar para atender suas demandas e fazer o ciclo girar, afastam-se.

Indústria x Academia

Existe no Brasil, o país das polarizações, uma cultura de que o profissional deve seguir a indústria OU a academia. Poucos procuram seguir a indústria E a academia. Uma ponte deve uni-los e não afastá-los.

Uma vez que optam pelo ambiente acadêmico, estudantes permanecem estudantes por toda vida, se tornam professores, mestres e doutores, e não procuram se aproximar da indústria para ver o que estão precisando. Entram para dentro (perdão pelo pleonasmo!) de suas pesquisas e artigos científicos sobre a rebimboca da parafuseta e esquecem do mundo aqui fora. Pior: colocam dezenas ou centenas de alunos, com liberdade de escolha comprometida pela situação do mercado ou situações adversas, em igual situação

Tudo bem, do outro lado, os profissionais que ingressam na indústria, uma vez que o fazem adquirem uma espécie de repulsa ao ambiente acadêmico. Como se ao adquirirem o diploma de graduação tivessem cumprido uma pena da qual querem se ver livre para sempre. A diferença é que neste caso a escolha é 100% deliberada. Cada um sabe do seu cada um, seus sonhos e ambições.

E por onde começar?

Vejo que a força motriz para essa conciliação deve partir das Universidades. As empresas podem desenvolver suas pesquisas fora do país ou criar seus próprios ambientes de ensino e pesquisa. As Universidades dificilmente conseguirão importar demanda de P&D. Ao contrário, continuam exportando estudantes para desenvolver pesquisa lá fora. Professores e pesquisadores precisam se aproximar da indústria aqui. Vejo diversas iniciativas partindo de empresas ou de empreendedores e algumas sendo fomentadas pelo próprio Estado, através de leis. Falta o engajamento das Universidades e de seus docentes.

Não quero parecer um pessimista que só crítica o Brasil, comparando-o com sistemas primeiro mundistas. Quem me conhece sabe que meus pensamentos determinam exatamente o oposto. A questão é que devemos utilizar modelos bem sucedidos como referência e, principalmente, adaptarmos o nosso às nossas necessidades e capacidades. Não existe certo e errado. Existem modelos de sucesso com financiamento público e modelos de sucesso com financiamento privado. Precisamos desenvolver o que funciona para nós. Isso é muito importante. E urgente.

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