Eu decidi que queria fazer Engenharia tarde. Apesar de sempre saber que minha inclinação era para as exatas, eu tinha muito interesse por alguns cursos mais voltados para comunicação e ciências sociais.

Gostava muito de Jornalismo e Publicidade. Psicologia sempre me agradou também.

Mas depois de algumas palestras, testes vocacionais e essas coisas que supostamente me ajudariam a encontrar o caminho profissional, a razão acabou vencendo e eu fui parar na Engenharia.

E aí, uma vez decidido que queria Engenharia, um outro leque de possibilidades se estendeu.

Era Engenharia de tudo que você pode imaginar. E parece que todo mundo ao seu redor vira Engenheiro pra dar dica. 

– “Mas vai fazer Engenharia de quê?”

– “Civil é legal, imagina construir prédios, pontes. Aquele primo do seu tio avô era Engenheiro Civil e está muito bem.” (seja lá o que ‘muito bem’ signifique para quem o disse)

– “E Mecânica então? Você pode trabalhar na Fórmula 1!”

– “Elétrica é muito complicado.”

– “Automação é uma nova . Parece que combina um pouco de Mecânica, Elétrica e Programação. É o futuro.”

– “Ah! Agora tem as de Produção também, que é como se você fosse um Engenheiro com um plus de Administrador. Já pensou?”

Bem, era mais ou menos assim o discurso lá em 2003, 2004, quando eu decidi fazer Engenharia.

Difícil né?

Aham! Também acho.

E parece que pouca coisa mudou desde então. Aliás, só piora ao invés de melhorar.

Foi então que eu decidi fazer Engenharia Mecânica. Sonhando ser Mecânico da Fórmula 1!

– “Mecânica, Rodrigo? Mas você não é Engenheiro de Materiais?”

Sim. Eu sou. E essa história eu vou deixar para outro artigo.

O fato é que acabei entrando na Engenharia de Materiais em 2007, sem saber muito o que ela representava. Hoje, depois de quase 8 anos no mercado, tenho completa noção do meu papel como Engenheiro de Materiais.

Aliás, se você quer saber o que faz um Engenheiro de Materiais, clique aqui.

E sei também distinguir razoavelmente bem as atribuições de cada uma das Engenharias. 

Da Química à Aeronáutica. Da Cartográfica à Biomédica.

São muitas! 39 de acordo com o Engenharia 360.

E é aqui que mora o problema!

Eu sei distinguir. Talvez você, Engenheir@, também saiba.

Mas muito recrutador não sabe.

E não dá nem para condená-los. Com 39!, eu possivelmente nem me esforçaria em tentar.

Fato é que a expansão da Engenharia foi uma necessidade. Veio naturalmente com a expansão da Ciência. A evolução dos conhecimentos científicos fez com que disciplinas que outrora estavam integradas a outras Engenharias ganhassem volume suficiente para serem estudadas separadamente. Faz parte do nosso desenvolvimento natural.

Mas como todo passo em direção à evolução vem acompanhado de um ponto negativo, o mercado interpretou essa expansão a seu contento. E saiu batizando tudo de Engenharia.

Engenharia ficou na moda!

Tal glamourização fez com que muita coisa começasse a ser chamada de Engenharia em um passe de mágicas, só porque soa bem.

Engenharia de Planejamento. Engenharia de Finanças. Até Engenheiro de Compras eu já vi. Outra vez vi o anúncio de uma vaga para Engenheiro Técnico! 

Resumo da ópera:

As Engenharias se expandiram em virtude da evolução natural da ciência e o ser humano aproveitou (mal) a oportunidade para batizar de Engenharia tudo que estivesse relacionado a algo ‘mais racional’.

Ideia que de racional não teve nada.

Isso tem resultado em processos seletivos extremamente confusos.

Vagas que requerem apenas conhecimento lógico, para bancos, consultorias ou fintechs, poderiam aceitar Engenheiros de qualquer área. Mas a depender de como a vaga é descrita, podem excluir uma série de profissionais aptos.

Outras vagas que requerem profissionais técnicos específicos limitam-se às Engenharias populares. Mecânica, Civil ou Química. E acabam contratando o profissional errado.

E isso é um dos motivos pelos quais você encontra vagas do tipo Engenheiro Mecânico ou Civil. Ou às vezes, Engenheiros em Geral.

Me desculpem, meus grandes amigos RH. Mas isso é lamentável!

Se você coloca no anúncio de vaga, Engenheiro Mecânico ou Civil, parece que você está contratando um profissional na década de 1960.

Sabe aquele Engenherio que o seu avô acha que você é? Que sabe montar e desmontar um carro ou projetar um banheiro novo para a casa de praia só porque você fez Engenharia? Ou que vai para a lua porque fez Aeroespacial?

Engenheiros em Geral é ainda pior. A menos que você esteja preenchendo uma dessas vagas que já mencionei, que requer apenas a qualidade de raciocínio lógico dos Engenheiros, não faz o menor sentido.

Sabe como a gente lê?

Ok, o anunciante não entendeu o que é a vaga e só por muita sorte terá a ver com o que eu busco. Vou arriscar para ver no que dá.

Eu sei. Estou sendo generalista e sei de muitas vagas que podem ser preenchidas por um Mecânico ou Civil. Mas é muito fácil reconhecer quando é o caso e quando não é.

Tudo bem que a Engenharia tenha virado moda. Isso pode ser ótimo.

Tudo bem que denominemos qualquer profissão de Engenharia. Não tem problema nenhum.

Mas saiba que todo truque de mágica tem seus segredos e está sujeito a falhas.

Da sua cartola pode até sair uma lebre. Mas não reclame se ficar com o gato.

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