Que o acesso ao ensino superior aumentou nos últimos anos não é novidade. Mas o que tem crescido também é a evasão de estudantes no ensino superior brasileiro. A Engenharia no Brasil é um curso/profissão que apresenta sérios índices de evasão. A taxa média de conclusão dos cursos de Engenharia no setor público é de cerca de 60% e, no setor privado, de 40%. E mesmo após a graduação, uma série de profissionais deixa a engenharia, no sentido literal do exercício da profissão, para seguir outros caminhos ou carreiras. Por quê?

Essa questão habita meus pensamentos há muito tempo. Ver estudantes e engenheiros extremamente capacitados no estado da arte da profissão trilhar outros caminhos ou mesmo atravessar fronteiras na busca de continuar exercendo-a porque as oportunidades no Brasil se limitaram, seja por motivo de crise ou pela própria cultura do país, me fez escrever a respeito.

A lista abaixo traz três fatores que pontuo como os principais motivos que levam à evasão dos cursos, em um primeiro plano, e posteriormente da profissão. Vamos a eles:

1. Deficiência na formação básica em Matemática e Ciências

O problema da educação básica é um dos maiores do Brasil e isso estamos cansados de saber. E quando se trata de Matemática e Ciências, a deficiência é maior ainda. Com uma base fraca em exatas, fica difícil prosperar em um curso de Engenharia.

Essa questão acarreta também em uma evasão, por vezes, tardia, uma vez que o aluno conclui as disciplinas correlatas ao âmbito prático, e.g. metalúrgica, mecânica, elétrica, mas deixa para o fim do curso as disciplinas base relativas a cálculos, física e algoritmos; e por vezes acaba desistindo por não suceder na estrutura base de todas as Engenharias.

2. Falta de vocação e o boom desgovernado na entrada

A necessidade de escolha por um curso de graduação logo após o ensino médio leva muitos jovens a escolherem as Engenharias como algo que soa cool ou satisfaz a família, e que não necessariamente está associado a uma vocação. Outros ingressam em um curso de Engenharia devido à baixa disponibilidade de vagas em escolas realmente qualificadas de business & management disponíveis no Brasil. Muitas vagas no mercado de trabalho para cargos de gestão, finanças e negócios demandam engenheiros ao invés de administradores ou economistas por exemplo.

Aliada, e também consequência disso, está uma larga ampliação na oferta de vagas por parte das instituições, com objetivo financeiro e não educacional, fazendo com que diversos estudantes acessem com facilidade as escolas de Engenharia atualmente. Muitos cursos de Engenharia inclusive são financeiramente viabilizados às custas do abandono de estudantes que encheram as classes dos primeiros anos financiando, com seu fracasso, os poucos colegas que avançam. Em 1946 existiam 15 instituições de ensino de Engenharia no Brasil. Na década de 1950 eram 16 e ao final da década de 1960, 64 escolas. Em 2010, o Brasil já contava com 2.232 cursos de Engenharia, com 492.779 alunos matriculados, número que aumentou para 713.588 em 2012! Uma taxa de evasão de 43,69% era registrada nessa época.

3. Baixa valorização do profissional e carência da carreira Y

De maneira geral, quando obtêm o título de engenheiro, os profissionais têm duas escolhas: trabalhar para a indústria ou permanecer no ambiente acadêmico. Em alguns casos, como o meu, uma conciliação entre ambos é administrada. O desejo da maioria, pelo que percebo, é atender as demandas da indústria, no entanto a falta de valorização do profissional, consequência também do boom de cursos e banalização do profissional, faz com que tomem novas direções, seja para outras áreas dentro da própria indústria ou permanecendo na academia, o que por vezes “vale mais a pena” quando se projetam objetivos de curto prazo. Isso faz com que posterguem o objetivo inicial com a expectativa de que em um lapso futuro a indústria mude sua característica e passe a demandar doutores ao invés de engenheiros. Isso leva a uma série de outros problemas, inclusive a debandada de engenheiros extremamente qualificados para o exterior. A pulverização, não só de engenheiros, mas de profissionais brasileiros pelo mundo é imensa e só aumenta. Não considero isso negativo, ao contrário, essa realidade só favorece o intercâmbio de culturas e conhecimentos. Mas o ideal seria que para cada brasileiro que deixa o país, um estrangeiro de perfil semelhante ocupasse seu lugar. Isso não parece acontecer e desequilibra tal mecanismo.

A carência da carreira Y, aquela na qual o profissional abdica da ocupação de um cargo de gerência (caminho tido como natural numa cultura empresarial terceiro-mundista, mas que já permeia os ambientes corporativos mais desenvolvidos), é outro fator que contribui para a evasão na Engenharia, principalmente no Brasil. Engenheiros que se destacam acabam evoluindo para cargos de gerência. E os que insistem em permanecer engenheiros, no exercício literal da profissão, se juntam ao grupo dos emigrantes, indo à busca de oportunidades onde tal cultura prevaleça.

Este artigo tem referência em dados de literatura e periódicos, mas principalmente em aspectos que tenho presenciado ao longo da minha carreira como engenheiro. Logicamente existem inúmeros outros fatores que levam à desistência nos cursos de Engenharia, como a dificuldade em pagar as mensalidades nas faculdades privadas, a desmotivação provocada pela falta de experiências práticas durante o curso e a necessidade muito prematura de escolha de especializações. Portanto, pode haver dados concretos que demonstrem ainda outros fatores e os definam como mais ou menos relevantes. O fato é que a evasão nas engenharias é uma realidade, precisa ser pensada e principalmente debatida para que se proponham alternativas e soluções capazes de neutralizá-la. Se realmente for educação e progresso que a gente quer.

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